Consequências da falta de regras em adultos

Consequências da falta de regras em adultos

Cada criança nasce dotada de uma carga genética que interage com o meio no qual ela é inserida. Sua estrutura cerebral se desenvolve em função das relações interpessoais da pessoa desde o início de sua vida. Suas redes neuronais se formam em função das redes de significado a partir das relações da criança com as pessoas mais importantes para ela.

A criança precisa aprender a controlar sua impulsividade e a regular suas emoções. Necessita de regras, normas, valores e princípios que possam direcionar sua conduta. Decorre daí a importância dos pais como educadores de verdade, utilizarem práticas parentais positivas na educação dos filhos. Quando crianças, pais mandam e filhos obedecem – é um saber popular que faz sentido. Na adolescência, pais mandam e filhos argumentam, pois ganham o direito a réplicas e tréplicas e, assim, aprendem o poder e o valor de uma negociação válida, aprendizado que eles mantêm e aprimoram para o resto de suas vidas.

Existem famílias funcionais onde os filhos recebem os limites adequados ao seu comportamento e aprendem a viver civilizadamente na coletividade, respeitando os outros e se fazendo ser respeitados, porém, atualmente, existem aqueles filhos que foram criados de forma superprotegida. A psicologia e a pedagogia do meio do século anterior, talvez tenham sido as principais responsáveis pela retirada das interdições às condutas das crianças, em virtude de uma educação restritiva demais impedir o desabrochar das potencialidades da criança, a tese se partiu para a antítese, o “não” foi abolido como execrável, passando a ser proibido na visão dos pais, assim as crianças ganharam o mando nas famílias e os pais se submeteram a elas, possivelmente acreditando que assim iriam formar pessoas com personalidade forte e criativas.

No entanto, o que acontece na realidade é o contrário: as crianças esperam que os pais lhes mostrem o que é o bem e o mal, qual o caminho certo a seguir. Ao crescerem sem regras, sem saber para onde ir, as crianças acabam por se tornar adultos inseguros de si próprios.

É imprescindível que as crianças experimentem o “não”, quando é necessário. É importante aprender a lidar com a frustração antes da chegada da adolescência, pois de contrário poderá ser tarde demais. Muitas vezes, os jovens procuram escape nas drogas e no álcool, pois, não aprenderam a lidar com as frustrações na infância, porque os pais não lhe deram a oportunidade para isso.

O autoritarismo é tão prejudicial ao desenvolvimento emocional quanto a permissividade total. Durante muitos anos, no tempo dos nossos avós, a educação era rígida, autoritária, com a prática de punição física e psicológica, cheia de restrições sem qualquer compreensão para a criança. É indiscutível que estas práticas educativas são impróprias, inadequadas e inaceitáveis e que provocam marcas emocionais negativas. Transformam as crianças em adolescentes (em alguns casos adultos) infelizes e inseguros, com a consequente baixa autoestima. De fato, uma criança que tem e faz tudo o que quer, que cresce sem quaisquer regras e limites, que raramente ouviu um “não”, é provável que se torne num adolescente com perturbações emocionais, sem saber bem quem é, com poucos objetivos de vida, pois tudo lhe caiu do céu durante a infância, sem compreender que é preciso trabalhar e investir nos relacionamentos para conseguir sobreviver. São normalmente adultos pouco autônomos e dependentes da família.

Deve existir o bom senso em dizer não para que uma criança ou adolescente compreenda que há comportamentos inadmissíveis ou birras sem propósito. É o dizer sim acompanhado de reconhecimento por algo que a criança realizou ou cumpriu. As crianças que viveram sem os “nãos”, buscaram sempre o prazer imediato e se acostumaram a exigir a satisfação pronta de suas necessidades e desejos. Não aprenderam a levar as necessidades e desejos do outro em consideração, pois, centradas em si mesmas e egoístas, tornaram seus pais reféns de suas exigências. Assim os pais, modelos primários de identidade, foram desvalorizados e despontencializados. Elas se acreditaram superpoderosas e donas do mundo. Assustadoras, por sua postura arrogante e agressiva, internamente se constituíram como fracas e assustadiças, pois não tinham quem as protegessem até delas mesmas.

Algumas crianças encontram, por vezes, outras que são psicologicamente mais fortes e íntegras, que os confrontaram auxiliando a saírem dessa situação de bebês eternos, outros cresceram como centro de atenções patológicas dos pais, jamais contrariados e se transformaram em adolescentes difíceis de trato, cheios da presunção de serem únicos, sempre exigentes e insatisfeitos. São adultos muitas vezes incapacitados para relacionamentos interpessoais que sejam nutridores, por não terem sido preparados para assumir qualquer responsabilidade sobre o outro. Querem apenas receber e pouco sabem dar alguma coisa em troca.

Poder atuar ainda na adolescência, é ainda tentar garantir que quando ele se torne adulto não tenha tanta dificuldade em lidar com as frustrações e com dificuldades de relacionamento, podendo minimizar sua postura arrogante e agressiva. Regras podem ser estabelecidas entre pais e filhos em qualquer idade, mesmo depois de adulto, desde que sejam justas para todos integrantes da família, tendo em vista a faixa etária do filho.

Quando uma criança é capaz de realizar uma tarefa, deixe que ela realize, oriente a fazer as coisas de forma correta, evite fazer as coisas para o seu filho se ele já tem condições físicas e psicológicas. Tarefas simples como o cuidado da casa compartilhado entre os membros da família, faz aumentar o vínculo afetivo entre eles e a noção de responsabilidade para os mais jovens, são hábitos saudáveis que crianças e adolescentes podem praticar em casa, afinal, os filhos são criados para irem embora, não para ficarem no ninho eternamente.

* Alex Leite é psicólogo (CRP: 06/109132) e atua com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade

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