Amarrei meu filho e me arrependi

Amarrei meu filho e me arrependi

Ele tinha pouco mais de 2 anos e estávamos tentando lhe fazer um corte de cabelo. O salão, apesar de ser exclusivo para crianças, não estava preparado para nos atender.  

Tinha um espaço reservado para brinquedos, só que o corte não poderia ser feito lá, mesmo com minha observação de que seria mais lúdico, já que meu filho estava muito resistente e já havíamos tentado o corte "no local apropriado" por duas vezes. A regra da casa, porém, não permitiu que fosse cortado cabelo no local onde se brinca, afinal, daria "muito trabalho limpar toda hora os brinquedos se todas as crianças resolvessem cortar lá o cabelo". 

Como as regras da minha casa não estavam ainda bem definidas e a mãe de primeira viagem, apesar de sentir que algo não estava certo e na tentativa de resolver um conflito, nem tanto pela vergonha do choro, mas para terminar logo com aquele sofrimento, falei: vou segurá-lo, pode cortar. Foi meu erro. O rapaz do corte fez sim com a cabeça. Foi o erro dele. 

Coloquei meu filho no colo, fiz um laço com os braços e apertei. O rapaz veio e começou a cortar, a tesoura fazia barulho, meu filho também. Meu laço de braço sempre tão confortável e amigo se tornara um nó cego. 

Paguei, recebemos a lembrancinha e no carro fomos conversando durante o trajeto de volta pra casa. Pedi desculpas a ele, disse que não queria ter feito aquilo, expliquei meus motivos, ressaltei a importância da elegância. Ele concordou, tudo ok. Será? 

No próximo corte de cabelo, obviamente em outro salão, o trauma estava instalado e apareceu forte e implacável. 

Ao ver aquela mulher com a tesoura na mão, mesmo o “tia” antes do nome, os tantos brinquedos ao redor, os peixes, João e Maria tartarugas e Zezé cabelo de folhas e aquela doçura de avó não fizeram com que o corpo do meu filho parasse de tremer cada vez que ela se aproximasse e lhe encostasse a mão nos cabelos. 

Recebi o diagnóstico: 

- Seu filho está traumatizado. Está com medo. Vamos ter que ter muita paciência, calma e carinho com ele - disse a voz da experiência.

Eu já sabia, sabia inclusive que a responsabilidade era minha, mas queria ouvir o prognóstico. 

- Favorável, disse ela. Vamos precisar de fazer alguns cortes com ele dormindo. 

Foram muitos, por muito tempo. 

E deu um trabalhão. Precisava não deixá-lo dormir de manhã para estar bem cansadinho à tarde e íamos a babá e eu de carro, dando voltas próximo ao salão, até que o sono chegasse. Ligava o rádio para que ele não notasse muita diferença na hora em que o carro parasse. Ligávamos para o salão avisando que estávamos chegando e lá estava ela, a avó de cabelos loiros, curtos e enroladinhos esperando na garagem com a tesoura na mão. 

Cortava na cadeirinha do carro, com a criança torta e, por vezes, o corte era interrompido pelo despertar do meu filho. Certa vez ele acordou e só tinha cortado parte do cabelo, voltamos para casa com um lado curto e outro comprido. Tivemos que fazer tudo novamente no outro dia. 

Depois do corte dormindo, enquanto a equipe aspirava meu carro, sempre havia brincadeiras, estávamos tentando dessensibilizar. Levava-o ao salão apenas para ele brincar. Fiz isso várias vezes.  

De cortar no carro, passamos a cortar no meu colo com resistência, no meu colo com menos resistência... Até quem um dia, véspera do seu aniversário de 4 anos, com muito empenho nosso, em casa e no salão, com muito diálogo, respeito e carinho, aconteceu! Cheguei bem antes ao salão (já pensando lá na frente) e ele ficou esperando e brincando. Entraram duas crianças antes dele e minha percepção de que ele estava pronto foi quando ele disse: 

- Mamãe, que horas é minha vez? Tá demorando. 

Fiquei bem feliz, radiante. Há dois anos esperava por isso. Mas neutralmente respondi: 

- Não sei. Acho que você é o próximo. 

E era. Quando foi chamado, fiquei onde estava. Não me levantei, e ele olhou para trás e disse que iria entrar sozinho. Fingindo ler a revista, lá fiquei. Apenas disse “ok” e que estaria por ali. 

Ele entrou na sala de corte. As secretárias que acompanham todo o processo e eu vibramos. 

O que houve lá dentro é sigilo profissional (risos). O que sei é que entrou na sala um bebê de cabelos grandes e saiu um rapazinho de cabelos cortados. Tive orgulho dele. E de mim. Errei e soube ressignificar. 

O tempo é da criança. Não adianta forçar. Nem pense que estávamos enganando meu filho ao fazer o corte com ele dormindo. Pelo contrário, estávamos o respeitando, dando a ele a oportunidade que não havia dado antes: de escolher!  

Uma boa mãe conhece seu filho. E quando ela está assistida por um bom profissional, por uma boa equipe, a segurança dela é transmitida para a criança. 

Minha regra agora é outra: mesmo que sua regra seja importante para você, vou me distanciar, educadamente, se não concordar com ela e se não entramos em acordo. E não faço nada que me machuque ou machuque meu filho para caber dentro do seu conforto

Somos todos muito preciosos e precisamos cuidar uns dos outros. 

10/04/2016 07:00

* Larissa Vaz é psicoterapeuta, psicodramatista, especialista em reabilitação cognitiva. E-mail: larissapsi@gmail.com e telefone (62) 3281-3061

Reportagem: Ludovica